As composições românticas e introspectivas, vulgarmente conhecidas como baladas, exigem solos bem pontuados, ternos, sensivelmente calculados para enobrecer o tema central da música sem corrompê-la. A tarefa não é fácil. Neste programa, vamos mostrar alguns instrumentistas que tiveram a inspiração para improvisar um grupo de notas tão belo quanto o próprio tema.
- Charlie Parker - "Dancing In the Dark" (Schwartz/Dietz)
- Dexter Gordon - "You've Changed" (Corey/Fischer)
- Woody Shaw - "Imagination" (Burke/VanHeusen)
- Chet Baker - "She was Too Good To Me" (Rodgers/Hart)
- Doris Day & André Previn - "Yes" (Previn/Langdon)
- Gerry Mulligan & Astor Piazzolla - "Years Of Solitude" (Astor Piazzolla)
- Vitor Assis Brasil - "O Cantador" (Caymmi/Motta)
- John Scofield - "Alfie" (Bacharach/David)
- Russell Malone - "Flowers fo Emmett Till" (Russell Malone)
- Keith Jarrett - "Blackberry Winter" (McGlohon/Wilder)
- Sonny Clark - "Deep In A Dream" (Van Heusen/DeLange)
- John Coltrane - "I'm Old Fashioned" (Kern/Mercer)
- John Coltrane - "Soul Eyes" (Mal Waldron)
- Quincy Jones - "Quintessence" (Quincy Jones)
- Stan Kenton - "My Lady" (Bill Russo)

Charlie Parker, por exemplo, raciocinava com a velocidade de um relâmpago. Durante a gravação de uma singela versão para "Dancing In the Dark" com arranjo de cordas, seu sax alto flutua em tempo dobrado, mas não abandona a delicadeza em nenhuma nota. O saxofonista Dexter Gordon, especialista em acordes intensos, contorna o clássico 'You've Changed' com passagens elegantes, sem jamais perder o rastro do tema central. O trompetista Woody Shaw, tão técnico quanto criativo, absorveu o estilo de Freddie Hubbard para bordar um sopro único, nítido e cristalino, porém sem apelar para a artificialidade. Em 'Imagination', ele mostra porque Miles Davis o considerava um dos trompetistas mais revolucionários entre as décadas de 1960 e 1970.
Solos em baladas não precisam ser complexos ou muito menos compridos. Em poucos compassos, alguns intérpretes podem dar o recado sem floreios e em concordância com o centro nervoso da composição. Chet Baker não era o mais virtuoso de todos, mas tinha tanta sensibilidade que a nota correta saltava de seu trompete sem qualquer dificuldade. O solo de 'She Was Too Good To Me' é curto, mas lindo. Depois, o pianista alemão André Previn abre espaço para a voz de Doris Day e por míseros compassos tempera 'Yes'com o solo perfeito.
Na seqüência, apresentamos a obra-prima do argentno Astor Piazzolla, 'Years of Solitude', com participação do sax barítono de Gerry Mulligan. Depois, o incansável e inspirado brasileiro Victor Assis Brasil recria a peça 'O Cantador', famosa na voz de Elis Regina.
Entre os guitarristas, trazemos John Scofield ampliando o standard de Burt Bacharach, 'Alfie', e Russell Malone desafiando sua própria composição 'Flowers To Emmett Till'. Para os pianistas, escolhemos os solos de Keith Jarrett em 'Blackberry Winter' e de Sonny Clark em 'Deep In A Dream'.
John Coltrane, altruísta e compreensivo, deixa o trombonista Curtis Fuller e o trompetista Lee Morgan dominarem os solos da doce 'I'm Old Fashioned'. Cinco anos depois, Coltrane exemplifica sua dinâmica invejável para subverter baladas em 'Soul Eyes', de Mal Waldron.
Para fechar, dois brilhantes alto-saxofonistas que protagonizaram alguns dos melhores solos elaborados para peças em orquestras. Primeiro, Phil Woods apresenta a alma de 'Quintessence', de Quincy Jones. Depois, Lee Konitz, com a orquestra de Stan Kenton, potencializa 'My Lady', de Bill Russo. O solo de Konitz está entre aqueles poucos que é mais lembrado que o próprio tema desenvolvido por Russo.