
O trompetista Tom Harrell, um dos destaques desta edição |
O UOL That Jazz desta semana mostra dois trompetistas de estilos bastante diversos: Freddie Hubbard (1938-2008) e Tom Harrell (1946). Em comum, além do instrumento, apenas o fato de que ambos tiveram de lutar contra sérias dificuldades (extremas, no caso do mais jovem).

Hubbard teve trajetória semelhante a outros trompetistas de jazz: sucesso na juventude, descontrole artístico na meia idade e extrema dificuldade na velhice, com problemas reforçados por anos de um estilo de vida festivo e hedonista. Mesmo assim, quando morreu, em 2008, o músico de Indianapolis (Indiana) já tinha assegurado seu lugar entre os grandes do jazz moderno.
O estilo virtuoso e vigoroso de Hubbard esteve presente em algumas das gravações mais fundamentais dos anos 60: “Out to Lunch”, de Eric Dolphy, “The Blues and The Abstract Truth”, de Oliver Nelson, “Mayden Voyage”, de Herbie Hancock, entre outros. Junto com Lee Morgan, Kenny Dorham, Donald Byrd e Blue Mitchell, era uma das grandes apostas do jazz.
A expectativa se confirmou nos anos 70, com “Red Clay” e outros discos para o selo CTI. Hubbard se tornou um dos grandes líderes do jazz. Em seguida, porém, Hubbard passou a cuidar pouco da sua carreira, lançando discos de qualidade inferior ao padrão que havia estabelecido. Quando tentou voltar à velha forma artística, sua capacidade física começou a se comprometer. Hubbard sempre exigiu muito fisicamente de si no momento de tocar, o que dificultou a preservação da integridade de seu lábio, fundamental para os trompetistas.
No início dos anos 90, seu lábio superior apresentou sérios problemas, e Hubbard foi forçado a parar. Depois, reaprendeu a tocar, mas com muita dificuldade e sem o mesmo brilho de outrora. Mesmo assim, permaneceu em esforço constante para apresentar sua música até o fim da vida.
A dificuldade de Tom Harrell é bem mais grave e se apresentou mais cedo na sua vida: o músico de Urbana (Illinois) foi diagnosticado com grave esquizofrenia paranóide muito jovem, quando ainda estava na faculdade, após uma tentativa de suicídio. Normalmente, a doença paralisa o progresso da vida do doente, mas Harrell, com sua extrema aptidão musical, conseguiu driblar algumas das dificuldade e se tornar um dos nomes mais importante de seu tempo no jazz.
Harrell depende fortemente dos remédios que mantêm sua condição sob controle para poder tocar. Apesar da ajuda, a medicação também apresenta problemas. Até um tempo atrás, ele sofria violentos espasmos musculares sobre o palco, especialmente quando não estava tocando. Hoje, durante shows e entrevistas, Harrell passa todo o tempo imerso em outro mundo, com a cabeça voltada para baixo e os braços parados ao lado do corpo. Só parece ganhar vida quando sopra seu instrumento.
Seu estilo é bem diverso do de Hubbard. Harrell é um grande arquiteto musical, criador de melodias e harmonias complexas, com capacidade única para criar composições que sugerem alguma música universal, entre o jazz, a música latina e o Leste da Europa.
Harrell se destacou, no início da carreira, tocando em grandes formações musicais: foi das big bands de Stan Kenton, Woody Herman, Sam Jones e Mel Lewis. Também tocou com bandas de tamanho incomum de Lee Konitz, Charlie Haden e George Russell. A complexidade desse som mais orquestrado está presente em seus trabalhos solo, mesmo quando usa formações menores. Entre seus discos de destaque, estão “Aurora”, “Passages”, “The Art of Rhythm”, “Light On” e “Prana Dance”. Recentemente, Harrell tem se dedicado ao seu quinteto e a tocar com o violonista sérvio Rale Micic.